quinta-feira, 30 de junho de 2011

Alma negra



Encontrar-me.
Enxergar-me.
Como sou.
Sem disfarces. Sem rodeios.


Minh'alma refletida
No fundo de um lago
Turvo...
Onde me encaro diretamente.


Minh'alma negra
Inconsciente.
Minh'alma perdida
Inconsequente.


Assim estou.
Sendo, sem o ser.
Curada deste mal?
Não. Para meu vício, não há remédio.


Alma negra.
Eis-me aqui.


Naiana Carapeba (30/06/2011)

quarta-feira, 29 de junho de 2011

Das minhas verdades



Não. Nem tudo é autobiográfico.
Seria limitar demais meus horizontes
Esperar viver cada linha que houvesse que escrever...


E, cuidado com o que lê: nem tudo foi escrito para você.
Não tenho o objetivo de atingir a cada um dos meus leitores de forma particular.


Escrever é apenas um desabafo de alma que transborda em palavras.
Uma leitura da vida.
Um olhar sobre o universo que me rodeia.


Apenas isso.


Um átomo isolado quase nada fala sobre o ser que compõe.
É necessário lembrar que, embora o integre,
Ele é apenas parte do todo.


Naiana Carapeba (29/06/2011)

Tirania



Seria a tirania o seu mal?
Oprimir e desrespeitar o outro seria uma constante em sua vida?


Qual o quê!


Sentia-se tanto mais masoquista,
pois envolta nesta auto-tortura persistente e insana.


Era um moto perpétuo de não realização -
que abalava toda sua vida,
que consumia toda sua paz,
que era - sem o ser.


Naiana Carapeba (29/06/2011)

terça-feira, 28 de junho de 2011

Putrefação



Era uma folha caída
Seiva não mais lhe percorria
Esperava apenas pela putrefação que a iria consumir
No chão enlamaçado em que se encontrava...


Naiana Carapeba (28/06/2011)

segunda-feira, 27 de junho de 2011

Guerra Fria



Em mim, há uma guerra acontecendo.
Divisões e fronteiras em movimento constante,
buscando concessões que não estou disposta a fazer.


Em mim, há uma guerra fria,
que se alimenta da minha incapacidade de decidir
entre dois lados que me parecem sempre certos.


Resta saber se será necessário um cogumelo nuclear
a me devastar - completamente e para sempre -
antes das forças de paz aparecerem...


Naiana Carapeba (27/06/2011)

domingo, 26 de junho de 2011

Travessuras da Menina Má



"Lily gostava de ir, todos os fins de tarde, a um canto do Parque Salazar fervilhante de palmeiras, copos-de-leite e campainhas, de cujo murinho de tijolos vermelhos contemplávamos toda a baía de Lima como o capitão de um navio contempla o mar na sua torre de comando. Quando o céu estava claro, e juro que nesse verão o céu ficou o tempo todo sem uma nuvem e o sol brilhou em Miraflores sem falhar um dia, divisava-se lá no fundo, nos limites do oceano, o disco vermelho, flamejante, despedindo-se com raios e fogos de artifício enquanto se afogava nas águas do Pacífico. O rostinho de Lily se concentrava com o mesmo fervor com que comungava na missa do meio-dia na igreja do Parque Central, a vista fixa naquela bola ígnea, esperando o instante em que o mar engolisse o último raio para formular o desejo que o astro, ou Deus, materializaria. Eu também pensava num desejo, acreditando mais ou menos que se tornaria realidade. Sempre o mesmo, é claro: que ela finalmente me aceitasse, que nós começássemos a namorar, a tirar sarro, e afinal nos apaixonássemos, ficássemos noivos, casássemos e fôssemos viver em Paris, ricos e felizes" (Mario Vargas Llosa).

sábado, 25 de junho de 2011

Os Maias


"– Talvez a mate – disse Craft, com toda a seriedade. Ega, já com os olhos brilhantes do Borgonha, declarou tragicamente que ele então entrava num mosteiro. Os dois gracejaram, sem piedade. Em que mosteiro queria ele entrar ? Nenhum era congénere com o Ega ! Para dominicano era muito magro, para trapista muito lascivo, muito palrador para jesuíta, e para beneditino muito ignorante... Era necessário criar uma ordem para ele !"

(Os Maias - Eça de Queiroz)

D'Habitude



Impressionante perceber o quanto tenho de hábitos arraigados em mim.
Fazer sempre as mesmas coisas, cercando-me das mesmas pessoas...


Sempre, sempre igual.
E bom. E ótimo. E maravilhoso...


Como a luz que banha as florestas.
Como o sol a nascer e a se pôr todos dias.
Como minha vida, a seguir seu roteiro pré-determinado.
D'Habitude.


Naiana Carapeba (25/06/2011)

quinta-feira, 23 de junho de 2011

Aldeia Global


Ali estava retratada a minha dualidade.
A divisão de meu mundo:
em dois pólos opostos...


Parecem estar interligados,
Mutuamente dependentes.
Contudo, a aproximação não ocorre de fato.
Apenas o parece ser. Não o é. 


Ambivalência: eis o nome de minha aldeia global...


Naiana Carapeba (23/06/2011)

segunda-feira, 20 de junho de 2011

Leve-me para a civilização



Sentia crescer em mim uma vontade imensa de viajar.
Uma resolução inquebrantável de cruzar os oceanos
e encontrar-me, banhar-me em civilização.


Queria sentir os aromas de tudo o que observava apenas de longe.
Queria andar à pé, às margens do seu rio, banhando-me com a chuva que cai mansamente ao final de suas tardes luminosas...
Precisava afogar-me no fog que cobre suas manhãs cinzentas...
E sujar-me inteiramente em sangue de touradas heróicas...
Precisava domar meu espírito,
Necessitava acalmar minha alma sedenta...


Ansiava por "alguma coisa de brilhante" (Eça de Queiroz - Os Maias)...
Por favor, leve-me para a civilização.


Naiana Carapeba (20/06/2011)

Expectativas



Expectativas que são nutridas apenas para serem frustradas,
não merecem este título.
Pois expectativas alimentam-se de promessas,
tendo por fundamento probabilidades efetivas de concretização.


E se, ao contrário, todo o universo sinaliza com impossibilidades,
não há porque aguardar qualquer realização.
Esperar o inverso é apenas nutrir a infelicidade.


Naiana Carapeba (20/06/2011)

domingo, 19 de junho de 2011

Distanciamento



Era uma percepção distorcida da realidade.
Aquele silêncio de alcova não me deixava raciocinar.
Aquele calor macio dos lençóis a me envolver,
como um abraço lânguido,
retirava-me o foco daquele encontro.


As luzes entravam no quarto como que filtradas,
mas eu não enxergava tudo o que acontecia.
Era como um filme sépia a acontecer, lentamente.
Em cenas de amor que se repetiam, repetiam, repetiam...
Fazendo-me derreter em suas mãos, debaixo do seu corpo.


A cama era majestosa em seu ambiente de veludos e sedas.
Reinava, absoluta. Sem distrações.
E, eu não me conseguia classificar.
Estática e nua, sob os lençóis que a tantas acolheram,
mirando-me no espelho da minha consciência.
Solitária, com tantas promessas que quedaram vazias,
jogadas ao piso daquele ambiente privado,
em que não havia restrição.


Precisava, talvez, de distanciamento.
Sair daquele ambiente que a convidava de forma incessante.
Em seus segredos de chuva de final de tarde.
Diminuir sua imagem, ao longe...
Talvez, assim, pudesse se enxergar.
Afinal, quem era aquela que me olhava do espelho?
Talvez, assim, pudesse entender.
E, entender o outro. Seu outro. Seu?

"Nem todas as formas que não identificamos são abstração.
Às vezes, é só um detalhe ampliado" (Eduardo Carrera).


Naiana Carapeba (17/06/2011)

sexta-feira, 17 de junho de 2011

E agora?


Agora, era esperar a dor passar.
Esperar esses espasmos lancinantes me deixarem.
De vez.


Quieta. Quieta. Quieta.


Até aprender a não ser mais...
Até não querer mais...
A não mais...
Mais?
Não. Obrigada.


Naiana Carapeba (17/06/2011)

quinta-feira, 16 de junho de 2011

Ou isto ou aquilo



Ou se tem chuva e não se tem sol,
ou se tem sol e não se tem chuva!

Ou se calça a luva e não se põe o anel,
ou se põe o anel e não se calça a luva!

Quem sobe nos ares não fica no chão,
quem fica no chão não sobe nos ares.

É uma grande pena que não se possa
estar ao mesmo tempo nos dois lugares!

Ou guardo o dinheiro e não compro o doce,
ou compro o doce e gasto o dinheiro.

Ou isto ou aquilo: ou isto ou aquilo...
e vivo escolhendo o dia inteiro!

Não sei se brinco, não sei se estudo,
se saio correndo ou fico tranqüilo.

Mas não consegui entender ainda
qual é melhor: se é isto ou aquilo.

(Cecília Meireles)

Condenado



Nesse encontro teria poucas regras a seguir.
Regras novas, embora datassem do início das coisas...
As que lhe eram tão caras (e antes regiam sua existência) tinham se rasgado por inteiro.
Não imperavam mais.


Assim, à míngua de um código escrito, restou sumariamente decretado:
Art. 1º. Haveria sorrisos. Muitos.
Art. 2º. Não haveria mentiras.


Nada mais? 
Não. O essencial estava já estabelecido.


Mas a torpeza atirou seus decretos à lama,
como se nada significassem.
O trato arruinado,
com mentiras que não traziam sorrisos a conhecer.

"– Sinto−me como se a alma me tivesse caído a uma latrina ! Preciso um banho por dentro !" (Eça de Queiroz - Os Maias).

Não havia, contudo, penas estabelecidas.
Nada poderia exigir, já o sabia de antemão...
Vácuo legislativo sobre direitos fundamentais que não seriam jamais usufruídos...
Mas, não. Não se utilizaria de mandado de injunção.
A sua pena, caríssimo, será lembrar-se de mim...


Naiana Carapeba (17/06/2011)

Banquete de cerejas


Apenas para registro, sinalizo que jamais trocaria todo um banquete apenas pelo prazer da sobremesa.
Isso nunca esteve em questão.
O destino da cereja é adornar a torta. Tão somente.
Jamais o substituir do jantar.

Naiana Carapeba (16/06/2011)

Civilização



Até para ser infame é necessário ter dignidade.


Naiana Carapeba (16/06/2011)




"A civilização custa−nos caríssima, com os direitos da Alfândega : e é em segunda mão, não foi feita para nós, fica−nos curta nas mangas... "

(Eça de Queiroz - Os Maias)

Voltar...



Há volta?
Como pisar sobre minhas próprias pegadas,
em direção oposta ao que já havia caminhado?


Há recomeço?
Como apagar as marcas deixadas pelos meus pés,
se imprimi em cada pisada a marca de minh'alma?


Há regresso?
Como  esconder as descobertas que fiz,
se elas trouxeram à tona o melhor e o pior de mim?


Há retorno?
Como fazer para voltar à inocência dos meus dias,
Se não há mais espaço para máculas, para mágoas?


Espere-me, por favor...
Estou de volta.


Naiana Carapeba (15/06/2011)

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Vulcão


Nem todos os avisos da natureza
Nem todas as impossibilidades físicas
Impediram esse encontro.

Nem todas as ameaças terrestres
Nem todos os desastres naturais
Inviabilizaram esse encontro.

Que eu temia tanto...

Agora, céus e mares cobriram-se com nosso pó.
E todos os nossos caminhos foram interrompidos.
Definitivamente.

Restou apenas a marca desta confusão
Em nuvens de cinzas a cruzar todos os continentes
Esperando serem tragadas, consumidas pelos oceanos,
pelas chuvas que irão apagar os rastros de nossa história.

Adormeçam os vulcões.
Adormeçam as paixões.
Adormeçam... Adormeçam... Adormeçam...

Desta vez, não haverá arco-íris a cobrir o céu.

Naiana Carapeba (13/06/2011)

Conto de fadas às avessas


Das declarações de não-amor


...




Vivia um conto de fadas às avessas
Escrita com silêncio...
Com o vazio.
O nada.


Não há porque marcar a estrada. 
Nada há a sinalizar.
Não haverá retorno para nós.
Não haverá.


É impressionante o quanto se pode ler,
mesmo quando nada está escrito.
Porque as ausências também denunciam,
suas falhas sinalizam o que de fato está a ocorrer.


Como um rio subterrâneo,
as declarações de não-amor nunca são colocadas no papel.


Naiana Carapeba (15/06/2011)

terça-feira, 14 de junho de 2011

Saudades



Saudades
Que doem n'alma,
Como fogo a abrasar-me por dentro.


Saudades
Que sai aos gritos,
Aos uivos doloridos lançados ao vento.


Saudades imensas
De uma história que não aconteceu,
De pessoas que não conheci realmente.


Senão apenas em breves momentos,
Senão apenas em alguns relances,
Que me pareceram um vislumbre do paraíso.


E fizeram-me agora
Rasgar-me em prantos de saudades...


Naiana Carapeba (13/06/2011)

Os Maias 7


        "Carlos, no entanto, fumando preguiçosamente, continuava a falar na Gouvarinho e nessa brusca saciedade que o invadira, mal trocara com ela três palavras numa sala. E não era a primeira vez que tinha destes falsos arranques de desejo, vindo quase com as formas de amor, ameaçando absorver, pelo menos por algum tempo, todo o seu ser, e resolvendo−se em tédio, em «seca». Eram como os fogachos de pólvora sobre uma pedra ; uma fagulha ateia−os, num momento tornam−se chama veemente que parece que vai consumir o Universo, e por fim fazem apenas um rastro negro que suja a pedra. Seria o seu um desses corações de fraco, moles e flácidos, que não podem conservar um sentimento, o deixam fugir, escoar−se pelas malhas lassas do tecido reles ?
        – Sou um ressequido ! – disse ele sorrindo. – Sou um impotente de sentimento, como Satanás... Segundo os padres da Igreja, a grande tortura de Satanás é que não pode amar.
        – Que frases essas, menino ! – murmurou Ega.
        Como frases ? Era uma atroz realidade ! Passava a vida a ver as paixões falharem−lhe nas mãos como fósforos".

(Eça de Queiroz - Os Maias)

Sobre rótulos e pessoas 2



Quanto à necessidade de decantação, nem sempre o óbvio é tão óbvio assim... Tenho medo de errar o tempo necessário entre a abertura da garrafa e sua prova.
Uma lástima perder o frescor de um Beaujolais nouveau com o aguardo equivocado de um amadurecimento que não lhe é característico.
A distinção é necessária para que se evite sorver aos goles apressados um Bordeaux de guarda, imediatamente após retirar-lhe a rolha. Tsc, tsc, tsc... Seus aromas apenas serão liberados à perfeição com a oxigenação que o ato de decantar possibilitaria...
Se muito se aprende com os rótulos, o que fazer quando a degustação acontece às cegas? O que irá denunciar a história do que se está a consumir - as castas de uvas das quais se elaborou o vinho que se está a provar, seu terroir, o produtor, o ano da colheita, etc, etc, etc ?... Os rótulos guiam o connaisseur...
Mas, não. Não há rótulos à vista. A pergunta do dia é: preciso ou não amaciar seus taninos?


Naiana Carapeba (14/06/2011)

Os posts mais visitados