terça-feira, 29 de dezembro de 2015

Passeio à beira-mar


Passeei à beira de seu porto -
Salgado. Parado. Morto.
Meus dedos a desenhar praias e enseadas -
Como você me desenhava...

Passei à beira de seu mar.
As águas pequenas, mal me fustigavam as pernas.
Nossa história apagada por suas ondas, suas ondas, suas ondas...

Mal restavam traços atrás dos meus pés.
Pegadas incertas. Pegadas sofridas. Pegadas sem soldo.

Das minhas mãos pingava sal.
Das minhas costas restavam sombras.
Das minhas pernas sacudia-se areia.

Meu filho grande.
Meu filho pequeno.
E o mar.

Naiana Carapeba
(30/12/2015)


segunda-feira, 11 de maio de 2015

A queda




Acreditei verdadeiro,
doei alma,
tremi desejo,
salguei entranhas.
Esperando você.

Uma música tocava na vitrola...
E seu corpo pesou, imenso, em mim.
Consumação...
Janela afora, caía uma chuva calada -
tal qual minha ingenuidade cadente.

Passeei por você.
Seus ombros.
Seu retrato.
Seus atos.

Sobre a mesa, a passagem comprada, seus sonhos espalhados.
Oportunidades se descortinavam em folhas acartonadas.
Mas, eu não estava ali.
Nada me fazia presente.

Eu não fui. Eu era ninguém. Ninguém.

Com a sua queda, esquecida e fria, segui seus rastros.
Estourei as bolhas da sua champagne no céu da minha boca.
Com a sua partida, nada. 
Nada. Nada. Nada.
Seu eco me chamava.
Vivi você no silêncio da sua morada vazia.
Sua ausência me queimou os dedos.
As paredes nuas. Feias.
E senti novamente a queda.
Você a desertar o meu corpo, 
seu silêncio cru nos meus ouvidos,
chamando sem parar...

Esperei você.
Fugido, horrorizado.
Fustigado.
Você só.
Caído.

Mas, novamente, o nada.

Agora, muros separatistas o aguardam.
Embora caídos, sua presença ainda impera.
E ajudarão a escrever nova história.
Novos. Novas. Novidades...
Novas quedas?

Eu. Só.
Eu. Sem.
Eu. Estanque.
Sem salgar minha carne.
Sem revelar minha história.
Sem sossegar minha pena.

Esperando você.

Naiana Carapeba 
(11 de maio de 2015)

segunda-feira, 30 de março de 2015

Beaten path



A Beaten Path


A beaten path —

that’s what she is.


In her world, the roads don’t lead to Rome…

they lead to her.

That’s for sure.


Her dog running toward her while she jogs tells her so.

Her kids googling her in awkward moments tells her so.

His hands reaching for her without warning in the middle of the night tell her so.


Will that ever come to an end?

Will it?


And when it finally does,

will she miss being the beaten path?


When she finally lives by the sea —

where the cold waves lick her legs,

where she lets herself sink into the salty water —

will it feel good?

Or will it be just another warning of a different kind of assault —

a reminder to keep being a beaten path,

only in another way?


Will the end ever come?


There has been no warning.

No signs beforehand.

Not for her.


She has always been so busy walking,

making their path smoother, more pleasant.

She has always been so busy thinking about them.


She didn’t read the new wrinkles as signs of anything —

not as some quiet attack,

not as life growing too tired to keep walking beside her.


Her path was no longer a beaten one…


Will death ever bring an end?

Will solitude be her ending?


Or will she keep appearing on every other beaten path,

on every path they will ever take?


Will she turn herself into a sandy beach?

Sun and glory,

water and sadness.


Will the sound of silence ever feel less frightening

than that madness of loud voices?


Will there ever be peace?


Will she finally pay that bill?

Will she give them that enormous sum

that would take all that misery away —

away from her?


All those begging hands…

Away.


Will she ever fly away?

Will she?


She will no longer be

a beaten path.


Naiana Carapeba
(30/03/2015)

quarta-feira, 18 de março de 2015

Rainha de Copas




A Rainha de Copas paira magnânima sobre seus súditos.
Controla suas vidas.
Seus suspiros.
Suas insignificâncias...

A Rainha de Copas paira sobre todas as vontades.
Faz-se única.
Onipresente.
Onisciente.
Imperatriz...

A Rainha de Copas amargura-se com pequenas contrariedades.
E, sombria, brande sua espada.
Irracional, faz rolar cabeças.
Insatisfeita, espreme os corações que lhe ofertam...

Dos seus súditos espera respeito.
Adoração.
Idolatria.
E medo...

A Rainha de Copas, 
embora tão respeitada,
conquanto tão adorada,
nada obstante tão idolatrada,
apesar de tão temida...
... vai morrer só.


Naiana Carapeba
(18 de março de 2015)

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